Ensina-me a viver

Quando um bom filme encontra-se com uma bela escrita. Leia a dica de cinema da Lia Guabiraba, do Diga Lá.

 

“Ensina-me a viver” é um pedido que eu faria para qualquer pessoa que tocasse em uma nota diferente no meu piano da alma. Adoro falar esta frase, pois as palavras parecem se encontrar na última sílaba, formando uma união perfeita de som e ideia.
Esse também é um filme que sempre me chamou a atenção, mas, por anos, ele passou por mim sem me tocar, sem me mover. Até que um dia, precisando me recompor desse viver tão fadigado, resolvi assistir ao Ensina-me a viver.
Seu outro título (do inglês, traduzido) é Harold e Maude, o que poderia nos sugerir um clássico romance norte-americano onde os personagens passam por diversos empecilhos para provar a si mesmos e a quem assiste da veemência do seu amor. No fim, um beijo ao pôr-do-sol e uma música romântica, que servem apenas para seguir a ordem desse tipo de filme: descoberta do amor, noivado, casamento e filhos.
Não quero insinuar que no final deste filme os personagens estarão discutindo epistemologia e tocará Debussy, para que, posteriormente, eles se tornem vegetarianos, defensores dos direitos humanos e líderes do Partido Comunista...
Dois seres que se conhecem nos funerais que costumavam freqüentar e que compartilham ideias distintas em relação à vida: esses são Harold e Maude.
Harold é um jovem cuja principal compulsão é simular suicídios. Maude é uma senhora de 79 anos, para a qual a morte é uma etapa fundamental da vida. Sua peculiar visão do mundo encanta Harold.
A confiança e o carinho entre os dois são mútuos e permite que Harold fale sobre tudo que gostaria de falar. Ele fala sobre todas as vezes que já morreu ou foi morto pela vida e que, por isso, passou a acreditar que gostava mais de viver quando estava morto. Mas Maude,com seu delicioso jeitinho “Carpe Diem”, vai lhe ensinando a viver, sem muito precisar falar.
Assim, Harold vai, aos poucos, conseguindo ressignificar sua vida. Pois é de se entregar, o viver. Mas é de recompor também. Como diria Guimarães Rosa: "Viver é um rasgar-se e remendar-se."
Ensina-me a Viver, conseguiu, explorando sutilmente as questões da nossa existência, me mostrar a beleza dos encontros e a troca inesperada que eles proporcionam. Pois conhecemos muitas pessoas todos os dias, mas poucas são, para nós, como os sons e as ideias de Ensina-me a Viver, que se juntam, querendo ser lidas e vividas em voz alta.