
Educar: o Desafio de Amar com Limites e Presença
Caros Pais e/ou Responsáveis,
Educar é, sem dúvida, uma das experiências mais profundas e desafiadoras da vida e, ao contrário do que muitas vezes se espera, esse processo não segue uma linha reta. Como nos lembra Leo Fraiman, “educar dá trabalho, mas é o único trabalho que realmente vale a pena”. É uma tarefa que envolve tropeços, avanços e revisões constantes, exigindo de nós não perfeição, mas presença, coerência e sensibilidade.
Vivemos em uma era de excesso de tarefas, estímulos e cobranças. Nesse cenário, muitos pais têm recorrido à ideia do “tempo de qualidade” como compensação à falta de convivência. Claro que momentos intencionais e afetuosos são valiosos, mas precisamos olhar com cuidado para a ilusão de que alguns minutos bem aproveitados substituem o valor do tempo real, da convivência contínua, do estar junto – mesmo nos momentos comuns, silenciosos ou até difíceis do cotidiano.
O pediatra Daniel Becker nos convida a refletir sobre isso ao dizer que “tempo de qualidade só é possível com alguma quantidade”. As relações se fortalecem na repetição dos pequenos encontros: o café da manhã sem pressa, o caminho para a escola, a conversa no fim do dia, a partilha das tarefas domésticas, o enfrentamento das birras, as noites maldormidas. É na vida vivida juntos que os laços se tecem e que valores são construídos.
A presença possibilita o amar que também é frustrar. Cuidar é também dizer “não”. Winnicott, ao apresentar o conceito de “mãe suficientemente boa”, lembra-nos que a frustração dos desejos imediatos da criança – de forma gradual, sensível e segura – é essencial para o amadurecimento emocional. É por meio dos limites que a criança aprende a lidar com a realidade, a respeitar o outro, a tolerar frustrações e a desenvolver autonomia.
O equilíbrio entre escuta e autoridade é essencial para o desenvolvimento emocional, pois a escuta atenta e sem julgamentos fortalece o vínculo sem comprometer a função parental. Ouvir genuinamente as emoções e perspectivas do adolescente promove segurança emocional, sem enfraquecer a autoridade. A firmeza com empatia estabelece limites saudáveis. A confiança é construída quando o seu filho se sente compreendido, mesmo diante de frustrações. Um “não” dito com afeto e coerência pode ser mais estruturante do que um “sim” sem reflexão.
É comum que, na culpa por estarmos pouco tempo com os filhos, sejamos tentados a ceder demais, a “compensar” com presentes, telas, permissões ou tolerância excessiva, mas o que as crianças mais precisam – e intuitivamente pedem – são adultos que ofereçam continência emocional, como dizia Sándor Ferenczi: uma escuta empática, capaz de conter e nomear o que elas ainda não conseguem organizar sozinhas. E isso requer tempo, paciência e presença consciente.
A boa notícia é que não se trata de estar disponível o tempo todo, mas de estar verdadeiramente presente nos momentos em que estamos juntos. Com o celular guardado. Com o olhar atento. Com escuta ativa. Com coerência entre discurso e ação. E com a coragem de sustentar o limite, mesmo diante do choro, da raiva ou da frustração – porque educar é também frustrar com amor.
Por isso, convidamos cada família a refletir: temos conseguido conviver ou apenas coexistir? Nossa presença tem sido significativa ou apenas física? Temos guiado com firmeza e ternura ou oscilado entre rigidez e permissividade?
A escola caminha ao lado de vocês nessa jornada, reconhecendo que educar não é um ato isolado, mas uma construção coletiva. Juntos, com afeto, diálogo e constância, podemos oferecer às nossas crianças e adolescentes o que há de mais valioso: um ambiente seguro para crescer, errar, aprender, amadurecer e ser.
Atenciosamente,
Serviço de Psicologia Escolar - SPE
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